Resenha: Instrumentos de Percussão na Música Sacra (RA Dez 09)



Amigos leitores, abaixo está minha carta ao Dr. Ozéas Moura,

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Prezado irmão Moura,


Espero que o irmão esteja desfrutando de bênçãos de Deus hoje!

Peço-lhe permissão para tecer alguns comentários sobre o seu artigo publicado na Revista Adventista desse mês no que tange ao método da pesquisa bem como as conclusões do artigo:

1. Colaboração na edição e confecção do artigo. Tenho certa dificuldade em aceitar que o artigo tenha tido a colaboração de profissionais da área de música e teologia.  Veja o conselho inspirado no livro Conselhos a Escritores e Editores, p. 48:

Submeta Nova Luz a Irmãos Experientes. - Há milhares de tentações disfarçadas preparadas para aqueles que tem a luz da verdade; e a única salvaguarda para qualquer um de nós é não receber nenhuma doutrina, nenhuma nova interpretação das Escrituras, sem primeiramente submetê-la a irmãos de experiência. Exponha-a perante eles em espírito humilde, pronto a aprender, com oração sincera; se eles não vêem luz nela, submeta-se ao seu julgamentol pois "na multidão de conselheiros, há segurança." [Testimonies, Vol. 5, pp. 291-293.]

Seria seguro dizer que o seu artigo passou pelo crivo de vários teólogos e músicos adventistas no Brasil?

2. O uso de fontes no artigo. Um artigo potencialmente controverso como esse deveria ter apresentado uma vasta busca de fontes sobre o assunto e que, consequentemente, poderia ter norteado as conclusões de forma drasticamente diferente do que o foram. Essas fontes também poderiam representar os "irmãos experientes" que EGW recomenda acima. No entanto, o que vemos são 5 citações, 4 de um só autor/livro!

Como acadêmicos, sabemos que nenhuma publicação ou pesquisa que pretenda representar o pensamento de toda uma igreja com vários níveis intelectuais deveria se basear em apenas dois autores.

Por isso, temo que seu artigo reflete pura e simplesmente as conclusões de Bacchiocchi, que por sua vez, não tinha colaboração de uma gama de especialistas, músicos e teólogos da IASD nos EUA para publicar materiais sobre estilo de vida, música, vestimenta etc. Seus livros eram "self-published",  ele era o autor, editor e finalmente o dono da publicadora. Sem dúvida, Bacchiocchi deu uma grande contribuição na questão do sábado mas isso não lhe concede carta branca como autoridade em outros assuntos teológicos. A Divisão Norte Americana não endossava suas leituras sobre questões não-sabáticas.

O livro "The Christian and Rock Music" dificilmente poderia ser considerado "peer-reviewed" ou colaborativo. Ele não só escolheu um grupo unilateral de autores mas ignorou o conselho de outros especialistas adventistas no assunto e como consequência, a Review and Herald publicou em 2003 o livro do professor Ed Christian "A Sensible Look at Christian Music"  que refuta o método e conclusões do livro "The Christian and Rock Music", de Bacchiocchi et al. O livro recebeu a apreciação de vários doutores adventistas da Andrews.

Usar Bacchiocchi como praticamente a única fonte em um artigo sobre música certamente foi uma simplificação.

3. O uso da Bíblia no artigo. Admira o fato de que nós adventistas temos um certo "orgulho santo" pela exegese que fazemos da Bíblia em questões doutrinárias, enquanto mostramos uma aplicação seletiva desses princípios quando o assunto é música sacra.

a. Reforma Musical. Um exemplo dessa exegese seletiva é a sua conclusão (segundo Bacchiocchi) de que a música estabelecida no Templo reflete uma "reforma musical" por parte de Davi que excluiu tambores. Mas isso é alheio ao texto.

Reformas são claramente descritas como tais na Bíblia: há um problema que leva a uma reforma. Por exemplo, o rei Josias:

"derribou os altares, reduziu a pó os aserins e as imagens esculpidas, e cortou todos os altares de incenso por toda a terra de Israel. Então, voltou para Jerusalém. No décimo oitavo ano do seu reinado, havendo já purificado a terra e a casa, ele enviou Safã, filho de Azalias, Maaséias, o governador da cidade, e Joá, filho de Joacaz, o cronista, para repararem a casa do Senhor seu Deus." (2 Crôn. 34:7-8)

Veja a relação causal entre problema= idolatria e a reforma= purificação e restabelecimento da Casa do Senhor


Porém, isso não ocorre na questão da música do Templo ou do povo de Israel. Não há uma só passagem em toda a Bíblia que apóie a conclusão de que o uso de tambores ou percussão na música sacra de Israel era um problema que precisava de reforma. Essa conclusão é imposta ao texto e é baseada na falácia lógica do argumento do silêncio: ora, se os tambores não estão no Templo, então foram proibidos ("reforma").

Mas não é o que a história de Israel mostra: os tambores e a dança ocorriam na festa dos Tabernáculos no Segundo Templo segundo fontes históricas. Para ler uma discussão completa sobre o uso dos tambores no Templo e as fontes da literatura rabínica, veja o meu artigo abaixo
Tambores e os "Instrumentos do Senhor"

Veja como o argumento da "reforma" baseado no silêncio é o mesmo usado por aqueles que justificam a mudança do sábado para o domingo por conta da ressurreição de Jesus neste dia. Um corolário inevitável dessa abordagem é valer-se do conceito de verdade "progressiva" quando não se tem uma progressão clara e inegável na Bíblia sobre o uso da percussão.

b. Associação como o paganismo. Ainda mais problemática é a declaração de que "Eles foram proibidos no templo, mas admitidos fora dele em festividades e encontros sociais" e que "a proibição de instrumentos de percussão surgiu na cabeça do próprio Deus."

Como poderia Deus ser tão incoerente em inspirar Davi a escrever o Salmo 150 se ele mesmo tivesse essa proibição em Sua mente? E ainda pior, permitir que esse Salmo fosse incluído no Cânon Sagrado se ele refletia "falta de luz" ou revelação? Se o argumento da "falta de luz" se sustenta, ele abre espaço para questionarmos outras verdades bíblicas como sendo meramente "velhas verdades" ou "verdades foscas", concorda?

Resta perguntar onde está essa suposta "proibição" dos tambores no Templo? Certamente ela não provém de nenhum texto em Crônicas mas é uma conclusão imposta ao texto. O que lemos em Crônicas é que no primeiro templo se tocavam harpas, alaúdes, címbalos e trombetas, shofares. Não há aí uma proibição nem tampouco há o conceito da reforma musical proposta por Bacchiocchi.

Já no Segundo Templo, a literatura rabínica revela que tambores e a flauta (também proibidas segundo Bacchiocchi e Moura) eram usados ali e que havia dança no Templo por ocasião da festa dos tabernáculos. E antes de questionar a validez a presença destes ali, lembre-se que Jesus chamou o Segundo Templo de "minha casa de oração" para todos os povos e ali se tocavam flautas e tambores e havia a dança. (Veja as fontes no meu artigo
Tambores e os "Instrumentos do Senhor")

O argumento da "proibição" dos tambores por associação com a música pagã, além de ser alheio à Bíblia, ignora que os mesmos instrumentos "mandados por Deus" no Templo tinham também associações negativas:

- Prostitutas tocavam harpas: Isa. 23:16,
- Harpas e alaúdes são tocadas em festas pagãs: Isa. 5:12
- Trombetas são usadas no culto pagão da Babilônia: Daniel 3
- Harpas representam a música da Babilônia mística: Apo. 18:22.

Outrossim, existem textos claros que apóiam o uso da percussão na música sacra. Seria justificável a busca por pérolas escondidas da revelação quanto ao uso desta   enquanto ignoramos ou tentamos "abafar" textos claros que nos permitem usá-la no culto racional?

O irmão também cita o uso de instrumentos de percussão no contexto de "festividades e cortejos". Creio que a inferência aqui é a música secular ou nacionalista. Porém os versos citados tratam claramente de música sacra de louvor a Deus:

Êx. 15:20 - Canto de Miriã celebrando a libertação de Deus;
Jz 11:34 - Celebração da vitória de Jefté com ajuda de Deus;
1 Sam. 10:5 - música sacra da escola dos profetas acompanhando exercícios proféticos;
1 Sam. 18:6 - música celebrativa da vitória de Deus contra os filisteus;
Gen. 3:27 (31?) - Possivelmente música celebrativa sacra, haja vista que dificilmente Labão pretendesse celebrar a viagem de Jacó que era um seguidor de Yahweh com música secular/pagã

Concordo em parte com sua abordagem a Eze. 28:13: teria sido mais prudente deixar a questão em aberto pois se não há consenso entre os especialistas em hebraico, qualquer tradução pode ser a correta. A escolha das versões é meramente devido a pressupostos pessoais, no seu caso, o Sr. preferiu a dos engastes; porém EGW utiliza a dos tambores e dos engastes. Por que o Sr. não incluiu essa citação no seu artigo?

O irmão também conclui que na "música sacra apresentada no culto em louvor a Deus, vê-se que tambores e tamborins ficaram de fora da música sacra." Essa declaração também confronta os versos que lemos acima pois todos eles são no contexto de louvor e culto a Deus, desde vitórias de guerra, cultos familiares até a escola dos profetas. Além disso o tamborim também era usado juntamente com as festas que aconteciam no Santuário (Salmo 81). Pouco importa o local onde esse louvor acontece, pois "onde dois ou três estão reunidos em meu nome, ali estarei". Onde é que está a limitação de espaço físico aí? Por isso o louvor dos israelitas fora do templo era tão LOUVOR e ADORAÇÃO quanto dentro do Templo.

Creio que aí também o irmão subscreva à idéia de que o Templo é um modelo para a Igreja. Eu abordo esse erro no artigo
Tambores e os "Instrumentos do Senhor".

Além disso, se Israel era uma Teocracia, como podemos argumentar que o povo em suas festas espirituais foram do Templo cantavam músicas seculares que não exaltavam a Deus, que era o seu rei e governante?

Por outro lado, veja como os tambores tinham profundas associações espirituais para os Israelitas e não com o paganismo:

- Foram tambores que celebraram a vitória de Deus sobre os Egípcios (Ex. 15);
- Foram tambores que celebraram a vitória de Jefté (Juízes 11:34);
- Foram tambores que celebraram a vitória de Davi sobre Golias em nome de Deus (1 Sam. 18:6);
- Foram tambores que acompanharam o canto dos Profetas e que fez Saul profetizar (1 Sam. 10:5);
- Foram tambores que celebraram o primeiro transporte da arca como símbolo da presença de Deus com Seu povo (1 Sam 6);
- Foram tambores
que celebraram festas religiosas junto ao Santuário (Salmo 68; Salmo 81);
- Foram tambores que Davi convidou para louvar a Deus no Salmo 149:3 e 150;
- Tambores acompanham musicalmente o castigo que Deus traz sobre os Assírios; Isa. 30:29
- Tambores representam a restauração espiritual do Seu povo: Jer. 31:4

Sobre o transporte da arca, EGWhite chama aquela celebração espiritual como sendo de "alegria e solene" (PP 707). Há também evidências de que o Salmo 68 reflete aquela ocasião (Veja meu artigo
Tambores e os "Instrumentos do Senhor)

Se os tambores estavam relacionados com grandes eventos espirituais na vida dos Israelitas, por que Deus os proibiria? Tampouco seriam eles proibidos por serem ofensivos a Deus pois isso jogaria no lixo toda a adoração Israelita que ocorrerra ao som dos tambores, adoração essa em que Deus "se alegra" (Salmo 149:3).

Portanto, torna-se indefensável a conclusão de que tambores tinham para os Israelitas associações com o paganismo e precisavam ser removidos do culto. Aliás, Bacchiocchi não parece fundamentar essa conclusão em nenhuma outra fonte fidedigna, pois simplesmente diz "segundo alguns estudiosos".

E mesmo que tentemos forçar a falácia lógica da culpa por associação sobre os tambores, veja como a Bíblia aponta para o uso de elementos que tinham conotações negativas e pagãs mas que Deus usou para comunicar verdades ao Seu povo:

- Serpente: Símbolo de Satanás em Gên. 3 e da deusa egípcia do silêncio; usado por Deus para representar a Cristo;
- Ídolo: Deus usou um ídolo para comunicar uma profecia a Nabucodonosor (Daniel 2);
- Cruz: símbolo da opressão, tortura e execuções brutais dos Romanos, usada por Deus para realizar o sacrifício de Jesus;

Já em nossos dias, o arco-íris estaria desqualificado (segundo Moura) como símbolo da promessa pois foi usurpado pelo movimento homossexual. Seria possível aceitar essa argumentação?

Esse são apenas alguns exemplos. Segundo o seu raciocínio, Deus estaria violando um princípio de separação entre santo e profano ao misturar esses símbolos com a verdade. Porém creio que o caso não seja de mistura de santo e profano mas sim que os símbolos tem os significados que damos a eles segundo nossa experiência. Por isso os tambores representavam algo para os Israelitas que poderia ser totalmente diferente para os filisteus por exemplo.

[Sua conclusão de que metsiltayim eram pequenos pratos (segundo Bacchiocchi) não tem apoio da arqueologia: eles variavam em tamanho e poderiam ser instrumentos percussivos grandes também, quase do tamanho dos pratos da bateria hoje (Veja Joachim Braun, Music in Ancient Israel Palestine). Também não sabemos como soava a música israelita exatamente para dizer que ela não era "ritmada". Além disso o ritmo ocorre em toda e qualquer música, ele é um elemento fundamental da música, independente de haver ou não percussão.]

Bastante superficial também é a interpretação (segundo Bacchiocchi) de que os instrumentos do Salmo 150 devem ser meramente "simbólicos" do louvor a Deus pelo fato de que há a menção de música "nos leitos, no firmamento e com espadas"; essa abordagem ignora o contexto em que o Salmo foi escrito: Israel vivia em um contexto bélico em que Deus era seu libertador precípuamente no contexto da guerra por isso a presença das espadas e possivelmente "leitos". (Salmo 68; Salmo 136). Além disso, não há um consenso no hebraico sobre o que esse "firmamento" signifique: pode ser a abóbada da terra o que tornaria esse louvor humano/terrestre primeiramente, o que não exclui necessariamente o louvor dos anjos. A exegese da Bíblia não pode se fundamentar em traduções, precisamos ir à língua original.

4. O uso de EGW no artigo.
Além da escassez das fontes usadas no seu artigo, as citações de EGW não são pertinentes pois não apóiam necessariamente a sua tese de que a percussão seja incompatível com a adoração.  Praticamente um terço do artigo traz citações de EGW e logicamente, o texto de Indiana está ali como suposto apoio às conclusões do autor.

Porém, considere que tanto a citação da passagem de Indiana fora de seu contexto imediato quanto sua aplicação universal mostram uma implícita crença na inspiração verbal do Espírito de Profecia, ou seja, se ela escreveu, pouco importa o contexto em que foi dito, que importa é o fato de que no fim "haverá gritos com tambores".

Mas além de violar regras de interpretação de EGW que ela própria recomendava ("tempo e lugar tem que ser considerados" ME 1:57), esse uso descontextualizado acaba colocando EGW acima da própria Bíblia! Ou seja, a Bíblia diz "louvem a Deus com tamborins" mas EGW diz que não podemos fazer isso! Ela mesma disse que seus escritos devem levar de volta à Bíblia mas como conciliar o fato de que a Bíblia claramente permite a percussão no louvor a Deus e EGW não? Sem dúvida EGW repudiaria o uso de seus escritos para contradizer conceitos bíblicos claros. Ela mesma recomenda que deveríamos estudar os quatro últimos Salmos de Davi. Como seria inconsistente de sua parte escrever isso e ao mesmo tempo repudiar a lista de instrumentos do Salmo 150 como "simbólica" ou refletindo "falta de luz"!

No meu artigo em anexo
Ellen White Era Contra a Bateria? eu exploro o contexto e a intenção de EGW ao escrever "gritos, tambores, música e dança". O artigo tem 12 páginas e tem se tornado referência para pastores sobre o uso dessa passagem. Basicamente o estudo conclui que a "profecia dos tambores" se aplicava especificamente ao movimento da Carne Santa e os tambores que eram usados ali.

É equivocado  portanto concluir que EGW foi transportada para o futuro distante, o fim do mundo em nossos dias e viu o uso da bateria. Ela recebeu a visão em Janeiro de 1900 sobre o que ocorreria em Setembro de 1900, os gritos e tambores (surdos de fanfarra) da Carne Santa. Além disso, note que o padrão das visões de EGW seguem os padrões bíblicos: nenhum profeta viu o futuro em tempo real, sempre em símbolos e com elementos relevantes aos seus dias. No caso de Indiana, ela recebeu uma visão de tambores que seriam usados ali em Indiana.

Prova contundente disso é o fato de que EGW não somente não repete a "profecia dos tambores" em nenhum outro lugar de seus escritos mas também adiciona que o fanatismo viria "de diferentes maneiras". Já em 1908 EGW aplicou esse princípio do 'diferentes maneiras' ao caso dos Mackins, onde manifestações espiritualísticas ocorreram ao som de piano e hinos tradicionais, sem tambores. Isso também pode ser visto nas Igrejas Pentecostais tradicionais onde as manifestações carismáticas ocorrem ao som de violinos e música sacra tradicional (Congregação Cristã no Brasil).

A menos que respeitemos o contexto, tempo e lugar da mensagem à Carne Santa (e de todo o EP), fazemos de EGW uma falsa profetiza pois grande parte do espiritualismo no mundo evangélico hoje ocorre SEM TAMBORES. [As reuniões das Lojas Maçônicas por exemplo preferem música clássica.] Obviamente a profecia de Indiana deve ser entendida como condicional à resposta da Igreja a essas manifestações. Outro exemplo de uma profecia condicional é a de Maio de 1856 em que EGW disse que alguns em sua congregação passariam pelas sete pragas, outros seriam transladados por ocasião da vinda de Cristo e outros seriam comidas de vermes. Salvo equívoco, todos ali se tornaram "comidas de vermes".

Sobretudo, a mensagem à Carne Santa girava em torno das heresias teológicas que necessitavam a criação de um culto com balbúrdia e ruído para que a experiência do "jardim" dos fanáticos realizasse a transformação da pessoa em "carne santa. Por isso, devemos entender a mensagem de Indiana como um alerta a "não dar animação" a esta espécie de culto onde heresias carismáticas podem florescer lembrando sempre do que ocorreu em Indiana em Setembro de 1900.

5. O uso da bateria por instituições Adventistas. A Revista Adventista como publicação oficial da IASD no Brasil tem mostrado recentemente estar em certa dissonância com a realidade musical da Igreja (Ex.: "Louvor Congregacional" Julho 09). A percussão e bateria têm sido usadas de maneira apropriadada por músicos adventistas, muitos deles grupos oficiais da IASD por décadas. Como poderia a Revista Adventista publicar um artigo que praticamente anatematiza toda a produção musical Adventista recente? Foram os líderes musicais da Igreja representados pelos Arautos do Rei, Novo Tempo e DSA consultados sobre sua publicação? Ou seria seu artigo uma tentativa de "reformar" a música baseada numa leitura tendenciosa da "reforma" de Davi?

Creio que esse uso da percussão tem sua base na Bíblia que convida todos os tipos de instrumentos ao louvor a Deus (Salmo 1491-150). Apesar de todo o aparente "malabarismo exegético" que se faz hoje em dia sobre o uso da percussão no Salmo 150, resta o claro e inequívoco aval bíblico para seu uso da música sacra. Obviamente esse uso não justifica o "vale tudo" mas deve acompanhar e apoiar o culto vibrante (Salmo 98), em espírito e em verdade e racional (Rom. 12) que deve ocorrer em nossas Igrejas e os resultados das produções musicais no Brasil apontam para o uso correto destes instrumentos. Sem dúvida o ministério musical adventista tem ajudado em tornar o Brasil o maior país adventista no mundo.

6. O potencial apoio ao extremismo.
Infelizmente temo que seu artigo acaba fomentando aquilo que se propôs a evitar, "extremos" (quiça fundamentalismo?).

Veja, eu cresci na IASD nos anos 80 quando muitas abordagens extremistas eram usadas contra a música que fugia de um padrão estabelecido, o tradicional. As ubíquitas músicas invertidas que passavam por "ciência" levaram a muitos abusos por parte de pastores e líderes da IASD. As acusações equivocadas de "fogo estranho" contra música não-tradicional (apoiadas pelo artigo de Gerson Pires na RA 89 e perpretradas ad nauseam por tradicionalistas desde então) colaboraram no processo de tornar a música adventista um ponto profundamente divisivo na Igreja.

Mais recentemente as palestras de Daniel Spencer ressuscitaram as mesmas abordagens dos anos 80 e muitos estão felizes com isso para detrimento da música adventista atual. Não há problema em ser tradicional necessariamente, desde que não se tente fazer disso o único método pois "nem todas as mentes são alcançadas pelos mesmos métodos." ( Testimonies, vol. 6, p. 116.)

Sabemos que o adventismo surgiu como um contraponto ao tradicionalismo evangélico do século 19. Nossas doutrinas estavam na contra-mão do pensamento e das tradições cristãs. Portanto, ser adventista não é ser "tradicional" necessariamente mas sim ser relevante (verdade presente) e ser acima de tudo, bíblico em suas opiniões:

"É importante que, ao defender as doutrinas que consideramos artigos fundamentais da fé, nunca nos permitamos o emprego de argumentos que não sejam inteiramente retos. Eles podem fazer calar um adversário, mas não honram a verdade. Devemos apresentar argumentos legítimos, que não somente façam silenciar os oponentes mas que suportem a mais acurada e perscrutadora investigação." (Evangelismo, p.166).

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Enfim, não pretendo fazer deste um longo email mas sobre outras questões e implicações do conteúdo do artigo em si, gostaria de submeter à sua apreciação os seguintes materiais que publiquei nos últimos 6 meses em meu blog www.AdventismoRelevante.com a pedido de alguns pastores e líderes da IASD. Os artigos estão anexados como PDF neste email e abordavam de maneia exaustiva muitos dos conceitos expressos no seu artigo:



1. Tambores e os "Instrumentos do Senhor"

2. Tambores e os Instrumentos do Senhor: Objeções e Refutações a Vanderlei Dorneles

3. Ellen White Era Contra a Bateria?

4. Fogo Estranho X Fogo do Senhor


Ainda de outros autores e pastores adventistas, sugiro a seguinte leitura:

http://www.novotempo.org.br/advir/?p=1997

http://notanapauta.blogspot.com/search?q=tambores

Finalmente tendo em vista as ressalvas que apontei acima, gostaria de saber se o irmão pretende publicar esclarecimentos sobre o seu artigo em breve?

Peço desculpas pelo longo email e aguardo suas considerações assim que possível.

Com apreço cristão,
André Reis
"No essential, unidade. No não essential, diversidade. Em tudo, caridade." (Agostinho)

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Todos os artigos acima têm versão PDF para fácil leitura e distribuição. Além desses materiais, também recomendo a seguinte resenha sobre o artigo do Dr. Moura publicada pela professora Vanessa Meira.

Maranata~

 

 

 

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