
A Revista Adventista de Junho 2009 publicou o artigo "Questão de Princípio" de Rayssan Guimarães Cruz, aluno do Unasp.
Parabéns a ele pela pesquisa e por ter seu material publicado. Quando estava no SALT e era assistente de pesquisas no Centro White, a RA publicou algumas matérias minhas também e isso é muito gratificante.
Cito alguns trechos do artigo e comento:
Do lead do artigo: "A música não pode ser definida a partir de nosso gosto ou cultura".
Este é um ideal discutível. Um obstáculo a este conceito é o fato de não haver revelação sobre estilo de música que Deus "prefere" na adoração. A música da Bíblia era em estilo hebraico primitivo, será que é só este estilo que Deus "prefere"?
Gosto. Não dá pra separar gosto da escolha musical. Note como muitos dos argumentos contra certo estilo de música sacra (tradicional ou progressista) se baseiam no princípio: "Se eu não gosto, Deus não gosta também."
Os que condenam a música contemporânea por exemplo gostam de usar frases como: "Com certeza Deus não se agradou da música hoje". Há até uma anedota de um pastor adventista que após ouvir uma mensagem musical da qual ele não gostou, pediu licença para sua congregação para orar no quarto contíguo à plataforma para rogar que Deus "voltasse" ao culto, a despeito da "abominação musical" que acabara de presenciar. Mas quem disse pra ele que o gosto dele é o mesmo gosto de Deus?
Daniel Spencer em suas palestras e vídeos ubíquos diz: "Eu era do mundo mas hoje adoro como Deus quer ser adorado. Sei qual o gosto de Deus." Este gosto de Deus é convenientemente o mesmo gosto de Spencer.
Daniel Spencer em suas palestras e vídeos ubíquos diz: "Eu era do mundo mas hoje adoro como Deus quer ser adorado. Sei qual o gosto de Deus." Este gosto de Deus é convenientemente o mesmo gosto de Spencer.
Por outro lado, creio que o gosto musical pode e até deve influenciar a escolha da música na adoração. Por quê? Porque a música deve falar ao ouvinte no aspecto emocional primeiramente, ela deve ecoar no seu coração através dos acordes, do contorno melódico, do "pathos" da música para que seja eficaz. Seria completamente inútil e até contraproducente utilizar a música sacra num culto em que os membros mal suportassem o estilo da música.
Portanto gosto musical é um aspecto inexorável da escolha da música sacra. O que é necessário é maturidade da parte de músicos e líderes da Igreja para não impor o seu gosto musical a um determinado contexto.
Exemplo: se uma certa congregação de maneira geral prefere um certo estilo de música, então ela responderá melhor a este estilo. Se a preferência é só de uns poucos que controlam a comunidade, então o desquilíbrio deve acabar para benefício da adoração.
O ideal é que este gosto coletivo seja primeiramente baseado em princípios bíblicos de adoração e no contexto local da congregação. Note que eu disse princípios bíblicos de adoração, não de música.
Cultura. A música sacra sempre foi influenciada pela cultura imediata. Desde os primórdios, o povo de Israel usava de instrumentos e linguagens musicais dos egípcios e cananeus. A música sacra considerada 'santa' hoje é fruto da cultura européia secular aristocrática e elitista dos séculos 17-19.
Dario Pires de Araújo considera esta a verdadeira "música de Laodicéia" em sua defesa da música sacra erudita, "Música Adventismo e Eternidade." Esta idéia é baseada no conceito de que há culturas (e até raças) superiores e que podem e até devem influenciar estilos de adoração.
"A grande preocupação da Igreja é evitar qualquer semelhança ou influência das músicas e rituais pagãos."
Concordo.
O problema é tentar criar paralelos entre o uso que se faz dos instrumentos musicais nos cultos pagãos e aplicar "culpa por associação" ao seu uso no culto cristão. Por exemplo, tem se dito que não podemos usar tambores ou percussão na música sacra porque estes são usados nos rituais pagãos e por isso esses meios estão automaticamente contaminados.
Mas por que não se vê nenhum esforço em fechar a Novo Tempo e o Está Escrito porque o meio Rádio e TV estão "contaminados" por novelas, violência e pornografia? ...
Não é o meio e sim o uso que se faz dele.
Não é o meio e sim o uso que se faz dele.
"A Igreja primitiva tinha o intuito de ser diferente. O propósito era mostrar a diferença para atrair, não a semelhança para difundir."
O fato é que não sabemos como era a música da Igreja primitiva. Sua música possivelmente manteve fortes influências da cultura judaica por muito tempo. Portanto, o conceito de "diferença para atrair" não se aplica às primeiras décadas da Igreja quando ela esteve limitada à Palestina e usava elementos culturais com os quais o judeus se relacionavam.
Outra implicação problemática dessa afirmação é a de que a Igreja primitiva impunha seu estilo musical e de adoração sobre toda e qualquer raça de novos conversos, o que não pode ser facilmente sustentado pela história. É muito mais provável que os conversos ao cristianismo do norte da África, de Roma, da Ásia menor adaptavam seus estilos musicais locais para o uso no culto cristão primitivo.
Com o apóstolo aos gentios, Paulo, o Cristianismo deu alguns saltos culturais e obviamente não manteve suas raízes judaicas, no que tange ao estilo de culto, música e língua. Seria impossível querer impor a subcultura cristã hebraica sobre outros povos Europeus simplesmente porque o Cristianismo nasceu ali. Paulo mostrou que o Cristianismo transcendiam raças e culturas e ao mesmo tempo não buscou impor este estilo judaico em suas viagens evangelísticas.
Portanto, o corolário deste conceito é fato de que a cultura cristã no primeiro século era resultado da cultura judaica do primeiro século e por isso, profundamente influenciada pela cultura contemporânea.
Ainda precisa ser comprovado que a música era uma parte fundamental do culto cristão primitivo, haja vista que somente um relato histórico, a carta de Plínio o Moço (61-113AD) a Trajano menciona o "canto" no culto cristão na Ásia Menor. Já a Tradição de Hipólito (155AD) e a Primeira Apologia (200AD) de Justino o Mártir não mencionam música no culto. O culto cristão primitivo centralizava-se na leitura da Palavra e na celebração da Eucaristia e pelo que tudo indica, a música tinha um papel de somenos importância.
"O desenvolvimento musical é fruto do desenvolvimento da Igreja. É claro que não podemos nos apegar a essa afirmação para introduzir qualquer estilo ou instrumento musical em nossas congregações."
O desenvolvimento musical deve muito pouco ou nada ao desenvolvimento da Igreja. A evolução da música sacra está intimamente atrelada à evolução da música secular. Portanto a música sacra pode ser considerada um subproduto da música secular. A música sacra também influenciou a secular, mas em muito menor escala.
O desenvolvimento musical deve muito pouco ou nada ao desenvolvimento da Igreja. A evolução da música sacra está intimamente atrelada à evolução da música secular. Portanto a música sacra pode ser considerada um subproduto da música secular. A música sacra também influenciou a secular, mas em muito menor escala.
Sobre os instrumentos, Davi é claro que TODOS os tipos de instrumentos devem ser usados no louvor a Deus, dentro de um contexto de Adoração. (Salmo 150).
"Não podemos questionar o fato de Deus não ter deixado normas específicas para a música."
Excelente... se tivesse parado por aí sem citar Ostermann: "Por meio de sua Palavra ele nos deixou princípios infalíveis "que governam e transcendem as questões de cunho cronológico, étnico e cultural".
O fato é que não existem na Bíblia "princípios infalíveis" sobre música que supostamente transcendam questões culturais. Existem sim princípios de adoração na Bíblia, mas não de música. Por isso a necessidade de se aprofundar na adoração que Deus pede e alinhar a música a isso.
"Devemos lançar mão dos benefícios alcançados pela escolha da boa música."
Aqui o artigo parece promover justamente o que se propôs a evitar: a interferência do gosto musical na escolha da música sacra. Isso porque este ideal de "boa música" é profundamente subjetivo e pessoal. O que é boa música para um, pode ser péssima para outro. Um acha que a Quinta Sinfonia de Beethoven é divina e o outro fica aterrorizado com esta. Uns podem achar a Nona Sinfonia celeste, enquanto outros não são movidos por esta a adorar. O que funciona em um contexto cultural, pode ser um disastre em outro.
Portanto, a "boa música sacra" pura e simples é aquela que faz o cristão adorar em espírito e em verdade, oferecento um culto racional.
Conceitos estéticos da música sacra são subservientes à sua funcionalidade no louvor: fazer o cristão adorar. Se uns adoram felizes com os grandes hinos tradicionais da fé, ótimo. Se outros adoram felizes cantando corinhos simples que estão ao seu nível intelectual e musical, que assim seja.
A música do culto não é um sacrifício a ser aceito por Deus precisando assim ser perfeito, "sem mancha e sem defeito". Há quem queira auferir qualidades salvíficas à música sacra e à adoração, o que é uma heresia.
Deus quer ver Seu povo adorando feliz, contente e vibrante e a música deve facilitar esse louvor.
"... uma coisa é certa: no decorrer da história, a música cristã tem mostrado uma característica diferenciada. E para que ela continue com essa característica, não podemos defini-la a partir de nossas próprias conclusões, mas por meio dos princípios estabelecidos pela Palavra de Deus."
Aqui novamente vemos a tentativa de se extrair princípios bíblicos sobre música. A última vez que alguém tentou fazê-lo foi Bacchiocchi com seu livro O Cristão e a Música Rock, livro este que continua a trazer confusão na Igreja pela agressão exegética ou melhor, eisegética (impor ao texto).
A Palavra de Deus precisa sim ser normativa para assuntos de adoração mas não tentemos extrair ou "produzir" princípios normativos sobre música. Eles não estão ali.
Para finalizar, creio que o artigo tem partes boas como o convite para que, "Como adventistas, devemos escolher o melhor para a adoração a Deus."
Mas creio que no geral, ele adiciona à confusão entre os princípios bíblicos de adoração (abundantes) e princípios musicais bíblicos (inexistentes).
Termino dizendo: "Quem souber que tipo de adoração Deus pede do cristão, saberá usar sua música para tanto."
