Rumores do Fim

Já faz algum tempo, o irmão Daniel Spencer, missionário português independente, tem causado bastante alvoroço com suas palestras nas igrejas do Brasil e exterior.

Não é de admirar, o adventista é naturalmente atraído a teorias de conspiração e sensacionalismo quando se refere ao fim. Nossa ênfase aos eventos finais acaba gerando um subproduto de medo e alarme.

Gostaria de analisar a minha impressão daspalestras do irmão Spencer. Elas podem desviar os ouvintes do sentido real das profecias e eventos finais.

Cristo não é o centro da mensagem. Em uma palestra de 2 horas, o irmão Spencer mencionou muito pouco a centralidade de Cristo nos eventos finais. Sua ênfase foi carregada nos enganos de Satanás, Nova Era, malabarismos numerológicos e alarme. Por essa razão, Satanás parece ser o centro de sua mensagem.

Ao conversar com um amigo bastante devoto aos ensinos de Spencer, notei uma preocupação exagerada com os enganos de Satanás. Tudo o que ele falava era sobre Satanás. Será essa uma característica dos seguidores de Spencer?

Numerologia exagerada. Me pareceram bastante remotos e exagerados os paralelos que ele traçou entre números, datas e o fim. Por exemplo, ele fala que 11 de Setembro é o início da nova ordem mundial porque 6 é o número de homem e o 9 é o seis invertido (!). Já o número 11 refere-se a duas pontas do pentagrama satânico expressado pelas formas ^ ^. Nessa mesma veia, a marca Volkswagen, representada por 3 ^ (VW) torna-se cúmplice dos enganos satânicos no tempo do fim. Outras marcas automobilísticas também são mencionadas.

Parece que na intenção de traçar esses paralelos e "apressar a vinda", o irmão acaba perdendo o bom senso.

Dedicação aos esportes como prática da Nova Era. Praticar esportes agora virou submissão a Lúcifer!? Ele menciona que o Basquetebol refere-se a rituais espiritualísticos por representar a fertilização da Lua (cesta) pelo Sol (bola).

Posso até ver muito ancião por aí mandando parar a bola no sábado a noite por causa de idéias extremistas como essas.

O Manual da IASD é inspirado. O irmão Spencer parece inferir que o Manual da Igreja é inspirado e o equipara à revelação em suas palestras. Está aí mais uma prova de que suas idéias são comprometidas com uma preocupação em controlar e regulamentar comportamentos através da política do alarme quanto ao tempo do fim. Não é por aí, afinal, o Manual são meras sugestões, cabendo ao Espírito a guia da Igreja em situações diversas.

Baterias na Igreja como sinal do fim. O irmão Spencer cita Ellen White que menciona tambores sendo usados para criar experiências espiritualistas no tempo do fim. Leiamos o que EGWhite diz precisamente:

"Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho.
Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo." (Mensagens Escolhidas, v.2, p. 36)

O que ela está descrevendo de maneira nenhuma se refere ao mero uso de baterias no louvor na Igreja Adventista. O que ela viu é o que já ocorre em certos cultos pentecostais onde o ruído é usado para criar um êxtase em que as pessoas gritam, há bagunça, estardalhaço e "dança", o que na verdades são expressões corporais desvirtuadas e gritantes. Veja que movimento no louvor é benéfico e deve ser estimulado, como levantar as mãos, bater palmas (Salmo 47) e balançar os braços. Isso tudo faz parte da expressão total do corpo na adoração, um louvor genuíno e espontâneo.

Esse argumento de que bateria é do diabo é tão surrado quanto dizer que quem usa barba é terrorista. Vale ressaltar que Davi sugeriu que todos os instrumentos sejam usados no louvor a Deus (Salmo 150).
Talvez seria a hora de revisar o Manual da Igreja onde se lê que instrumentos usados no Jazz não são próprios para a adoração.

Spencer também protesta o fato de que a bateria é usada para sincopar ritmos ou enfatizar o segundo tempo de um compasso. Essa reserva contra o uso da bateria é completamente inócua. E daí se o terceiro tempo é enfatizado e não o primeiro? Quem criou a regra de que um tempo do compasso é mais santo do que o outro?

Lembre-se que a síncope é usada em toda a música erudita, sem protesto algum dos tradicionalistas. Porém, o hino Brilha Jesus se torna anátema porque é composição nova.

Tendências perfeccionistas. Uma ênfase exagerada em entender exatamente o que vai acontecer a cada passo do fim tende a cair no perfeccionismo, porque essa abordagem enfatiza o que EU devo fazer para ser salvo e não o que DEUS fará para me salvar. Embora tenhamos uma visão bem clara do que acontecerá no fim, não temos TODOS os detalhes. O historicismo deixa algumas lacunas no entendimento da profecia, até porque Deus não revelou tim-tim por tim-tim como tudo vai acontecer. A única profecia não condicional é a segunda vinda, como vamos chegar lá, Deus pode adaptar.

Tenho que me preocupar mais em desenvolver um relacionamento com Cristo, um desejo intenso de estar na Sua presença e com certeza estarei salvo.

Essas são algumas das idéias notáveis de Daniel Spencer, com certeza haverá muitas outras a serem discutidas. Que a Igreja estude mais o que já foi revelado em vez de se deixar levar por todo vento de doutrina, mesmo que esses ventos sejam bem intencionados e surjam até mesmo de dentro da Igreja.

"Não somos salvos pelo
QUANTO conhecemos e sim por QUEM conhecemos."
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