O livro O Cristão e a Música Rock foi lançado em 2000 por Samuelle Bacchiocchi, téologo famoso por seus livros em defesa do sábado. Por ser um livro "caseiro" publicado pela editora de Bacchiocchi Biblical Perspectives, foi um sucesso em vendas. A influência no Brasil foi marcante também, o que fez os editores do site www.musicaeadoracao.com.br o traduzirem para o português.O livro é escrito por Bacchiocchi e outros 6 autores. Bacchiocchi escreveu os 7 primeiros capítulos onde ele tenta forçadamente a extrair princípios bíblicos para a música. Os outro 7 são de outros autores.
Para quem não sabe quem é Bacchiocchi, o livro poderia ter sido escrito por um Bispo Católico Medieval. Por exemplo, na página 22 ele diz: "Quando a igreja perdeu sua influência e a sociedade se tornou secular, a noção de que as artes estéticas não eram sujeitas à responsabilidade moral continuou." (p. 22). Isso surpreende porque Bacchiocchi, que dedicou sua vida a desmascarar os abusos do papado, agora parece fala com saudosismo dos dias em que a Igreja Católica dominavas as artes!
Cabe constar aqui que as opiniões de Bacchiocchi sobre música e outros não representam a visão da Igreja Adventista como um todo. Seus livros não eram publicados pela Review and Herald ou Pacific Press mas eram publicados por ele mesmo, por iniciativa própria.
Por outro lado, um livro que critica extensamente o livro de Bacchiocchi aqui discutido foi sim publicado pela Review and Herald, publicadora Adventista nos EUA. O livro A Sensible Look at Christian Music pelo professor universitário adventista Ed Christian foi publicado pela Review and Herald.
Eisegese
Infelizmente o livro O Cristão e a Música Rock foi uma tentativa infeliz de traçar princípios bíblicos para a música sacra. Ele teve o mesmo sucesso de alguém que se propõe a escrever um livro de receitas culinárias bíblicas.
Infelizmente o livro O Cristão e a Música Rock foi uma tentativa infeliz de traçar princípios bíblicos para a música sacra. Ele teve o mesmo sucesso de alguém que se propõe a escrever um livro de receitas culinárias bíblicas.
Em vez Bacchiocchi aproximar-se do assunto com mente aberta, ele trouxe para a Bíblia sua própria opinião já formada, i.e., de que somente a música clássica ou tradicional é aceitável na Igreja e por isso ele agride ao texto Bíblico e pratica a 'eisegesis' (impor ao texto) e não 'exegesis' (extrair do texto). Ele buscou na Bíblia razões para justificar seus gostos pessoais (e dos outros autores do livro).
Essa prática é típica de quem não quer aceitar verdades Bíblicas claras porque ferem seus gostos pessoais. Um exemplo é sua declaração de que o Salmo 150 é simplesmente um Salmo poético, figurativo. Por quê? O problema está nos instrumentos que ele permite serem usados na adoração: instrumentos de corda, sopro e percussão. Bacchiocchi não quer aceitar que tamborins e címbalos sejam aceitos na adoração então ele os relega ao mundo do não-literais, abstratos, fantasiosos.
Ainda mais inaceitável para Bacchiocchi é o verso 4 onde o Salmista diz: "Louvai-o com adufe e com danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flauta!"
Ele baseia sua opinião contra a dança na palavra machol. Ele quer inferir que o 'dançar' aqui era na verdade um instrumento de sopro, posição essa que é insustentável para eruditos em hebraico, tanto é que todas as traduções respeitáveis do Velho Testamento contêm a palavra "dança". Essa palavra continua sendo usada hoje por Judeus em canções como "dança" e existem grupos de dança judaica, principalmente judeus messiânicos, que usam machol, e.g., Machol Dance Ministry. Obviamente Bacchiocchi não cita isso no seu livro, ele prefere relevar a evidência.
Falácias Retóricas
Bacchiocchi utiliza um método conhecido como falácias lógicas, ou retóricas em seu livro. Uma pesquisa concisa sobre esse método analítico encontra-se em aqui (em inglês).
Basicamente o método consiste em usar várias técnicas de análise que mascaram o real cerne da questão e desviam a atenção do leitor através de analogias falsas, non sequitur (uma coisa não tem nada a ver com outra), evidências tendenciosamente analisadas, meias verdades, generalizações apressadas, dogmatismo e falsa autoridade, entre outras. Essas técnicas são comuns entre advogados criminalistas que tentam levar o juri a tomar uma decisão impensada que os favoreça. No caso de Bacchiocchi, elas levam o leitor a considerar o que está sendo dito como verdade absoluta, incontestável. Ele sem dúvida se vale de sua reputação na questão do sábado para auferir autoridade ao assunto da música (falsa autoridade).
Ele escreve:
"Os ouvintes do rock religioso nunca se humilharão diante da majestade de Deus, nem serão convencidos das reivindicações morais de Deus sobre suas vidas." (p. 28). E na p. 97 ele diz: "Se a igreja utiliza um tipo de música rock, a qual é associada com sexo, drogas, satanismo, violência e a rejeição da fé cristã, ela obviamente não será capaz de desafiar a juventude a viver de acordo com as exigências morais do evangelho."
Quem é ele para afirmar algo tão fulminante? O que ele está dizendo é que quem ouve música cristã contemporânea não se salvará. Ora, ora, vindo de Bacchiocchi, que combateu os abusos da Igreja Católica em todos os seus anos de academicismo, isso é surpreendente. Subitamente ele parece se tornar católico e pensar que tem as chaves do céu e do inferno, ou que somente os que fazem parte do seu grupo seleto é que serão salvos. É um despaltério teológico dos maiores.
Eu sou formado em música erudita, do tipo que Bacchiocchi gosta mas também participo e já liderei grupos contemporâneos de louvor que usam bateria, contrabaixo e guitarra elétrica e posso dizer que senti Deus agindo todas as vezes que tocamos e cantamos essas músicas que Bacchiocchi dizem levar pessoas ao inferno. A majestade de Deus é sentida e vivida pelas pessoas que ouvem essas músicas sim, talvez mais do que aqueles que consideram sua música um elemento de aceitação perante Deus. Não só sua majestade, mas seu amor, seu interesse pessoal por cada um, seus reclamos morais. Para alguém que nunca experimentou um culto contemporâneo ou que não conhece a vida dos músicos querer considerar a experiência como falsa é querer tornar-se Deus. (Mat. 7:1-2).
Culpa Por Associação
Na página 50, Bacchiocchi escreve: "A música solene, que inspirava o temor a Deus, da igreja primitiva era impulsionada por uma visão sublime de Deus. Seu afastamento das associações seculares que os instrumentos musicais poderiam trazer é particularmente relevante para o debate atual sobre o uso da música e instrumentos associados com o cenário do rock. A lição a ser aprendida do testemunho da igreja primitiva é que a adoração de um Deus santo, majestoso, pede por uma música sacra que evite associações seculares."
Uma implicação lógica dessa idéia é que precisamos proibir o piano e o órgão na igreja, porque eles são instrumentos básicos para o Rock, jazz e blues e possuem associações seculares óbvias. Porém, o autor parece não se importar com esses instrumentos porque eles tocam a música que ele gosta.
Primeiramente, a igreja primitiva não é modelo para a igreja moderna. Lembra-se da inquisição e das indulgências? Os Papas tramavam exterminar os "hereges" ao som de corais de canto gregoriano. Bacchiocchi parece retirar lições da história que servem para seu argumento enquanto ignora outras implicações. Pelas suas associações, o canto gregoriano que ele parece louvar teria que ser banido como música diabólica. (Eu pessoalmente amo o canto gregoriano pelas suas qualidades contemplativas e relaxantes. Mas não é a música do céu porque Bíblia diz que a música no céu vai ser jubilosa e exultante).
Bacchiocchi também se contradiz ao apreciar o canto gregoriano (uníssono, a cappella) como boa música e depois dizer que a boa música consiste em equilíbrio entre "melodia, harmonia e ritmo." O canto gregoriano não tinha harmonia e fugia de ritmos acentuados e pelo seu raciocínio, não era então boa música. Aí se vê a fraqueza das premissas dos seus conceitos musicais.
Na página 84 escreve: "Pode a música rock, que nos anos sessenta rejeitou o cristianismo, glorificou a perversão sexual, promoveu as drogas, que foram responsáveis pela perda das vidas de alguns de seus heróis, ser adotada legitimamente e transformada em um meio apropriado para adorar a Deus e proclamar o Evangelho? Ao respondermos a esta pergunta, é importante nos lembrarmos que o meio afeta a mensagem. Se o meio é associado com a rejeição do cristianismo, perversão sexual e drogas, ele não pode ser legitimamente usado para comunicar as afirmações morais do Evangelho."
O que ele está dizendo é que os meios contaminados pelo seu uso em fins mundanos não podem ser relacionados com a pregação do Evangelho. O que dizer então da TV, do Rádio, da internet, revistas e livros? Todos esses meios estão relacionados com a rejeição do Cristianismo, para a perversão sexual, drogas e violência e nem por isso vamos mandar fechar a TV Novo Tempo por causa das novelas da Globo! Vejam que ele não disse, o estilo, mas o próprio meio é desqualificado.
Um dos hinos mais cantados do hinário é o "Grandes Coisas, Mui Gloriosas" (HA 557). A música desse hino é a do hino nacional alemão. Seria correto cantar esse hino se sua música (seu meio) foi usada para promover o nazismo? Segundo a lógica de Bacchiocchi não, no entanto, o hino continua sendo cantado em nossas igrejas. A associação não parece ser assim tão problemática para os tradicionalistas. (Após a segunda guerra mundial, em 1952 foram removidas a primeira estrofe "Deutschland, Deutschland über alles" (A Alemanha acima de tudo") e a segunda e a terceira estrofe se tornou o hino oficial (Unidade, o direito e a liberdade...).
O próximo hino a ser excluído de acordo com a lógica Bacchiocchiana é "Há um País", baseado na música secular Irlandesa "Londonderry Air" que tinha letras puramente "mundanas" como diz Bacchiocchi. Hoje ela é cantada em bares e para entretenimento na letra de "Oh Danny Boy".
Outro argumento falido que já tinha sido usado na década dos 70s e 80s é dizer que o Rock é do diabo porque ele inverte a estrutura natural da música e enfatiza o segundo e o 4 tempo do compasso. Por alguma razão isso parece apelar para quem não conhece música como mais um argumento desesperado para controlar o comportamento dos outros. Perdi a conta de quantas vezes vi pessoas usando esse argumento para condenar o rock.
Bacchiocchi diz: "Na música rock e formas semelhantes, o padrão da acentuação é invertido, de forma que as batidas dois e quatro são acentuadas, em vez das batidas [a tradução correta seria tempo do compasso] um e três, como representado no compasso que se segue: um, DOIS, três, QUATRO. Invertendo a ordem, o rock torna o ritmo a parte mais importante do som e cria um conflito com os ciclos rítmicos naturais do corpo. "
Não há uma ordem a ser invertida, seu raciocínio é absurdo. Além do mais, não há nenhum ritmo natural do corpo que seja 6/8, 4/4 ou 3/4 etc. Se houvesse, teríamos que descobrir qual é esse ritmo e usar músicas somente no dito compasso, cuidando para não desviar dele com risco de paradas cardíacas ou derrames cerebrais! Além disso, não existe regra alguma musical que diga que certos tempos do compasso são mais desejáveis do que outros. A bateria simplesmente enfatiza tempos do compasso que fazem parte da estrutura natural da música, com ocasionais síncopes.
Para mostrar ainda mais como Bacchiocchi escolhe argumentos por conveniência existem hinos do hinário que tem exatemente essa ênfase em "tempos poluídos" (rítmico anapéstico) do rock! Aqui vão como são cantados:(Quando eu era pequeno, sempre que cantávamos a música Rude Lenho, eu ficava pensando no tal do "negro manso de trevas e dor"...).
Essa prática é típica de quem não quer aceitar verdades Bíblicas claras porque ferem seus gostos pessoais. Um exemplo é sua declaração de que o Salmo 150 é simplesmente um Salmo poético, figurativo. Por quê? O problema está nos instrumentos que ele permite serem usados na adoração: instrumentos de corda, sopro e percussão. Bacchiocchi não quer aceitar que tamborins e címbalos sejam aceitos na adoração então ele os relega ao mundo do não-literais, abstratos, fantasiosos.
Ainda mais inaceitável para Bacchiocchi é o verso 4 onde o Salmista diz: "Louvai-o com adufe e com danças; louvai-o com instrumentos de cordas e com flauta!"
Ele baseia sua opinião contra a dança na palavra machol. Ele quer inferir que o 'dançar' aqui era na verdade um instrumento de sopro, posição essa que é insustentável para eruditos em hebraico, tanto é que todas as traduções respeitáveis do Velho Testamento contêm a palavra "dança". Essa palavra continua sendo usada hoje por Judeus em canções como "dança" e existem grupos de dança judaica, principalmente judeus messiânicos, que usam machol, e.g., Machol Dance Ministry. Obviamente Bacchiocchi não cita isso no seu livro, ele prefere relevar a evidência.
Falácias Retóricas
Bacchiocchi utiliza um método conhecido como falácias lógicas, ou retóricas em seu livro. Uma pesquisa concisa sobre esse método analítico encontra-se em aqui (em inglês).
Basicamente o método consiste em usar várias técnicas de análise que mascaram o real cerne da questão e desviam a atenção do leitor através de analogias falsas, non sequitur (uma coisa não tem nada a ver com outra), evidências tendenciosamente analisadas, meias verdades, generalizações apressadas, dogmatismo e falsa autoridade, entre outras. Essas técnicas são comuns entre advogados criminalistas que tentam levar o juri a tomar uma decisão impensada que os favoreça. No caso de Bacchiocchi, elas levam o leitor a considerar o que está sendo dito como verdade absoluta, incontestável. Ele sem dúvida se vale de sua reputação na questão do sábado para auferir autoridade ao assunto da música (falsa autoridade).
Ele escreve:
"Os ouvintes do rock religioso nunca se humilharão diante da majestade de Deus, nem serão convencidos das reivindicações morais de Deus sobre suas vidas." (p. 28). E na p. 97 ele diz: "Se a igreja utiliza um tipo de música rock, a qual é associada com sexo, drogas, satanismo, violência e a rejeição da fé cristã, ela obviamente não será capaz de desafiar a juventude a viver de acordo com as exigências morais do evangelho."
Quem é ele para afirmar algo tão fulminante? O que ele está dizendo é que quem ouve música cristã contemporânea não se salvará. Ora, ora, vindo de Bacchiocchi, que combateu os abusos da Igreja Católica em todos os seus anos de academicismo, isso é surpreendente. Subitamente ele parece se tornar católico e pensar que tem as chaves do céu e do inferno, ou que somente os que fazem parte do seu grupo seleto é que serão salvos. É um despaltério teológico dos maiores.
Eu sou formado em música erudita, do tipo que Bacchiocchi gosta mas também participo e já liderei grupos contemporâneos de louvor que usam bateria, contrabaixo e guitarra elétrica e posso dizer que senti Deus agindo todas as vezes que tocamos e cantamos essas músicas que Bacchiocchi dizem levar pessoas ao inferno. A majestade de Deus é sentida e vivida pelas pessoas que ouvem essas músicas sim, talvez mais do que aqueles que consideram sua música um elemento de aceitação perante Deus. Não só sua majestade, mas seu amor, seu interesse pessoal por cada um, seus reclamos morais. Para alguém que nunca experimentou um culto contemporâneo ou que não conhece a vida dos músicos querer considerar a experiência como falsa é querer tornar-se Deus. (Mat. 7:1-2).
Culpa Por Associação
Na página 50, Bacchiocchi escreve: "A música solene, que inspirava o temor a Deus, da igreja primitiva era impulsionada por uma visão sublime de Deus. Seu afastamento das associações seculares que os instrumentos musicais poderiam trazer é particularmente relevante para o debate atual sobre o uso da música e instrumentos associados com o cenário do rock. A lição a ser aprendida do testemunho da igreja primitiva é que a adoração de um Deus santo, majestoso, pede por uma música sacra que evite associações seculares."
Uma implicação lógica dessa idéia é que precisamos proibir o piano e o órgão na igreja, porque eles são instrumentos básicos para o Rock, jazz e blues e possuem associações seculares óbvias. Porém, o autor parece não se importar com esses instrumentos porque eles tocam a música que ele gosta.
Primeiramente, a igreja primitiva não é modelo para a igreja moderna. Lembra-se da inquisição e das indulgências? Os Papas tramavam exterminar os "hereges" ao som de corais de canto gregoriano. Bacchiocchi parece retirar lições da história que servem para seu argumento enquanto ignora outras implicações. Pelas suas associações, o canto gregoriano que ele parece louvar teria que ser banido como música diabólica. (Eu pessoalmente amo o canto gregoriano pelas suas qualidades contemplativas e relaxantes. Mas não é a música do céu porque Bíblia diz que a música no céu vai ser jubilosa e exultante).
Bacchiocchi também se contradiz ao apreciar o canto gregoriano (uníssono, a cappella) como boa música e depois dizer que a boa música consiste em equilíbrio entre "melodia, harmonia e ritmo." O canto gregoriano não tinha harmonia e fugia de ritmos acentuados e pelo seu raciocínio, não era então boa música. Aí se vê a fraqueza das premissas dos seus conceitos musicais.
Na página 84 escreve: "Pode a música rock, que nos anos sessenta rejeitou o cristianismo, glorificou a perversão sexual, promoveu as drogas, que foram responsáveis pela perda das vidas de alguns de seus heróis, ser adotada legitimamente e transformada em um meio apropriado para adorar a Deus e proclamar o Evangelho? Ao respondermos a esta pergunta, é importante nos lembrarmos que o meio afeta a mensagem. Se o meio é associado com a rejeição do cristianismo, perversão sexual e drogas, ele não pode ser legitimamente usado para comunicar as afirmações morais do Evangelho."
O que ele está dizendo é que os meios contaminados pelo seu uso em fins mundanos não podem ser relacionados com a pregação do Evangelho. O que dizer então da TV, do Rádio, da internet, revistas e livros? Todos esses meios estão relacionados com a rejeição do Cristianismo, para a perversão sexual, drogas e violência e nem por isso vamos mandar fechar a TV Novo Tempo por causa das novelas da Globo! Vejam que ele não disse, o estilo, mas o próprio meio é desqualificado.
Um dos hinos mais cantados do hinário é o "Grandes Coisas, Mui Gloriosas" (HA 557). A música desse hino é a do hino nacional alemão. Seria correto cantar esse hino se sua música (seu meio) foi usada para promover o nazismo? Segundo a lógica de Bacchiocchi não, no entanto, o hino continua sendo cantado em nossas igrejas. A associação não parece ser assim tão problemática para os tradicionalistas. (Após a segunda guerra mundial, em 1952 foram removidas a primeira estrofe "Deutschland, Deutschland über alles" (A Alemanha acima de tudo") e a segunda e a terceira estrofe se tornou o hino oficial (Unidade, o direito e a liberdade...).
O próximo hino a ser excluído de acordo com a lógica Bacchiocchiana é "Há um País", baseado na música secular Irlandesa "Londonderry Air" que tinha letras puramente "mundanas" como diz Bacchiocchi. Hoje ela é cantada em bares e para entretenimento na letra de "Oh Danny Boy".
Outro argumento falido que já tinha sido usado na década dos 70s e 80s é dizer que o Rock é do diabo porque ele inverte a estrutura natural da música e enfatiza o segundo e o 4 tempo do compasso. Por alguma razão isso parece apelar para quem não conhece música como mais um argumento desesperado para controlar o comportamento dos outros. Perdi a conta de quantas vezes vi pessoas usando esse argumento para condenar o rock.
Bacchiocchi diz: "Na música rock e formas semelhantes, o padrão da acentuação é invertido, de forma que as batidas dois e quatro são acentuadas, em vez das batidas [a tradução correta seria tempo do compasso] um e três, como representado no compasso que se segue: um, DOIS, três, QUATRO. Invertendo a ordem, o rock torna o ritmo a parte mais importante do som e cria um conflito com os ciclos rítmicos naturais do corpo. "
Não há uma ordem a ser invertida, seu raciocínio é absurdo. Além do mais, não há nenhum ritmo natural do corpo que seja 6/8, 4/4 ou 3/4 etc. Se houvesse, teríamos que descobrir qual é esse ritmo e usar músicas somente no dito compasso, cuidando para não desviar dele com risco de paradas cardíacas ou derrames cerebrais! Além disso, não existe regra alguma musical que diga que certos tempos do compasso são mais desejáveis do que outros. A bateria simplesmente enfatiza tempos do compasso que fazem parte da estrutura natural da música, com ocasionais síncopes.
Para mostrar ainda mais como Bacchiocchi escolhe argumentos por conveniência existem hinos do hinário que tem exatemente essa ênfase em "tempos poluídos" (rítmico anapéstico) do rock! Aqui vão como são cantados:(Quando eu era pequeno, sempre que cantávamos a música Rude Lenho, eu ficava pensando no tal do "negro manso de trevas e dor"...).
Note que mesmo sem a letra, os tempos enfatizados continuam sendo os mesmos! E agora, não podemos mais cantar esses hinos porque tem o ritmo anapéstico do rock? Bacchiocchi parece achar que sim. (Esse assunto é tão complexo que até os grandes músicos como Chopin discutiam em que compasso determinada peça estava).
Hinos rítmicos são comuns tais como o "Vencendo Vem Jesus" (hino da batalha americano), e "Quando For Então Chamado" onde o ritmo se sobressai à melodia. (É possível que a comissão que preparou o hinário tenha atenuado o ritmo desses hinos para que fossem mais "cantabiles".)
Bacchiocchi também entra na questão de mulheres no culto e sua tese é que a música das mulheres estava associada ao entretenimento e por isso elas não participavam do serviço do templo. Ele parece ignorar o fato de que Miriã ensinou o povo de Israel a louvar a Deus ao saírem do Mar Vermelho, a Bíblia traz a canção de Débora (Juízes 5) e a de Maria (Lucas 1:46-55). Em nenhum lugar da Bíblia lemos que a música das mulheres estava relacionada a entretenimento porque elas usavam percussão, como Miriã.
Ela baseia sua tese no silêncio da Bíblia e isso invariavelmente leva à especulação.
Os capítulos de Calvin J. são particularmente problemáticos. Calvin é professor de música erudita e escreveu vários livros sobre música sacra. Ele parece ter transferido sua abordagem de apreciação musical erudita para a igreja, o que foi extremamente infeliz. Essa resenha não permite discutir quão equivocadas são suas idéias sobre música sacra porque teríamos que ir linha por linha desmascarando conceitos elititistas e preconceituosos. Ela precisa de um segundo artigo.
Basta dizer por ora que Calvin J. exige que a música para a adoração seja de um patamar tão elevado, tão perfeito, seguindo regras impecáveis que ele próprio inventou sobre criatividade e arte e somente do estilo clássico ('música séria' ou 'boa música') que seus conceitos descartam por completo a música oferecida pelos meros mortais que cantam e tocam em igrejas de todo o mundo. Suas idéias de excelência exigem que somente os melhores músicos profissionais participem da música oferecida na igreja e que toquem somente música erudita. Música é salvífica para ele, não é Jesus quem salva e sim Mozart, Beethoven e Bach.
Continuarei a falar dele mais tarde.
Conclusão
O mais triste de haver lido as idéias de Bacchiocchi foi lembrar que por muitos anos eu me deixei levar por esse tipo de argumentação quando ainda adolescente. Somente após ter experimentado a adoração real que acontece nos meios musicais contemporâneos é que fui levado a rejeitar como falso o conceito de que Deus não pode se expressar através da música cristã contemporânea. E vou além, para muitas pessoas, esse é o único meio que Deus para alcançá-los, para surpresa de Bacchiocchi e seus seguidores.
Bacchiochi por não ter qualquer experiência como músico, bebeu nas mesmas fontes que causaram divisão e mal entendidos na Igreja nos anos 70s e 80s. Lembram-se dos JAs onde se invertiam LPs para mostrar o satanismo atrás da música rock? Seus argumentos são da mesma linha, infundados e exagerados como mostrei acima. Há um desejo patente por e ele e pelos autores do livro de controlar uma aparente conspiração satânica na música sacra e eles estão dispostos a usar meias verdades, leituras estreitas da revelação e fatos distorcidos para alcançar esse objetivo.
Ele está certo porém quando diz que a música rock mundana é um impecilho para o crescimento espiritual. Suas letras são destituídas de princípios espirituais e exaltam paixões humanas ateísticas e deprimentes. Mas isso não se aplica à música cristã contemporânea porque seu objetivo é pregar o evangelho, usando uma linguagem musical contemporânea. Ao tentar jogar as duas no mesmo saco, ele pecou em muitos aspectos como vimos acima.
O resultado dos conceitos distorcidos do livro O Cristão e a Música Rock infelizmente é o de trazer mais divisão a uma igreja que precisa estar unida para adorar a Deus "em espírito e em verdade." Divergências sobre música são meras diferenças de gostos e qualquer teólogo que queira aumentar ainda mais a fogueira ao produzir trabalhos superficiais, tacanhos e tendenciosos está prestando um desserviço à causa de Deus.
Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor.
Louvai ao Senhor!
(Em breve análise de outros capítulos).
Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor.
Louvai ao Senhor!
(Em breve análise de outros capítulos).

